O desenvolvimento do pensamento evolutivo

Baseado no livro One Long Argument: Charles Darwin and The Genesis of Modern Evolutionary Thought de Ernst Mayr. Harvard University Press.

Antes de Darwin

Até a publicação da "Origem das Espécies", em 1859 a visão sobre a origem do mundo que prevalecia na época era aquela fundamentada nos principais dogmas cristãos, como a crença num mundo imutável e criado, projetado por um criador sábio e benigno, e onde o homem ocupava uma posição única. De acordo com estes dogmas, o mundo não havia mudado materialmente desde a sua criação, tendo sido criado numa época recente e com todas as suas espécies, apenas uma única vez. Quando muito poderiam ter havido diversas criações pela substituição de todas as antigas, segundo Agassiz por exemplo; ou pela substituição de cada espécie individual, como Lyell havia proposto. Este mundo apesar de apresentar imperfeições, era o melhor dos mundos possíveis, de acordo com Leibniz. Os organismos estavam totalmente adaptados ao seu ambiente, já que este mundo havia sido projetado por um criador onipotente. De maneira geral esta era a visão da época, a despeito de Lamarck já ter proposto uma teoria da evolução, contrariando, assim a idéia de um mundo imutável.

Quanto as ideologias que prevaleciam naquele período, havia uma que estava profundamente enraizada no pensamento ocidental e que se opunha a visão Darwiniana de evolução; era o essencialismo. Tal ideologia tinha suas origens há mais de dois mil anos atrás, com Pitágoras e as suas formas geométricas. Um triângulo, por exemplo, independente da combinação dos seus ângulos, sempre teria a mesma forma; a do triângulo. Ele é descontinuamente diferente de um quadrado ou qualquer outro tipo de polígono. O triângulo é uma das formas possíveis de um polígono. De uma maneira análoga, todos os fenômenos variáveis da natureza seriam reflexo de um número limitado de eide ou essências, imutáveis e delimitadas. O essencialismo, enquanto filosofia definida, é normalmente creditado a Platão. O mito da caverna é bem conhecido: o que vemos dos fenômenos do mundo corresponde as sombras dos objetos reais, projetadas na parede da caverna pela luz de uma chama. Nunca podemos ver as essências reais. A variação é a manifestação dos reflexos imperfeitos das essências constantes básicas.

Durante a Idade Média o essencialismo foi incorporado ao pensamento cristão, por São Tomás de Aquino e seus seguidores, os Tomistas. Assim, todas as coisas que estão na mente de Deus, quer sejam objetos animados ou inanimados tinham uma essência imutável e eterna. Deus teria materializado todas essas coisas, que teriam sido criadas no início dos tempos. Suas criações refletiam uma ordem, um padrão, denominado de Scala Naturae, ou A Grande Escala dos Seres. Desta maneira existia uma hierarquia ascendente desde os seres inanimados, passando pelas plantas, os animais inferiores, os humanos até os anjos e outros seres celestiais. Era uma escala perfeita, permanente e imutável. Todos os seres tinham uma posição fixa, determinada segundo os planos de Deus.

Os amigos e professores de Darwin eram, de certa maneira, essencialistas. Para Lyell toda a natureza consistia de formas imutáveis, cada uma criada num momento definido. "Existem limites fixos para certas formas, além dos quais os descendentes de ancestrais comuns nunca podem desviar". Acrescenta ainda: "É pura perda de tempo...discutir sobre a possibilidade abstrata da conversão de uma espécie em outra, quando existem causas conhecidas muito mais ativas, que sempre intervém, impedindo a realização de tais conversões" (Lyell 1835:162).

Todos os filósofos até a época de Darwin viam as espécies de organismos sob a ótica do essencialismo. Eles consideravam as espécies como "tipos naturais", definidas por características inalteráveis e nitidamente separadas umas das outras por lacunas intransponíveis. O filósofo essencialista William Whewell, colocou categoricamente, "As espécies tem uma existência real na natureza, e a transição de uma para outra não existe" (1840, 3:626). Para John Stuart Mill, "as espécies são formas naturais, como os objetos inanimados o são, e as formas são classes entre as quais existe uma barreira intransponível".

Foi necessário o gênio de Darwin para ver que a singularidade de cada indivíduo não é limitada à espécie humana, mas é igualmente verdadeira para toda espécie animal ou vegetal, sexualmente reprodutiva. De fato, a descoberta da importância do indivíduo tornou-se a pedra fundamental da teoria da seleção natural de Darwin. Isto, eventualmente, resultou na substituição do essencialismo pela idéia de população, que enfatiza a singularidade do indivíduo e o papel crítico da individualidade na evolução. Desta maneira, a variação, que para os essencialistas era irrelevante e acidental, tornava-se agora um fenômeno crucial da natureza viva.

Na época de Darwin e com o advento e aceitação de sua teoria, muitos dos seus contemporâneos aceitaram o fato da evolução, porém não podiam pensar em termos de população devido ao comprometimento ideológico com o essencialismo. Eles aceitaram, todavia, um conceito de evolução baseado na produção rápida de novas espécies, por saltos. Era a única maneira de conciliar evolução com essencialismo. Segundo esta visão as espécies poderiam ser substituídas por outras novamente criadas que são mais ou menos do mesmo nível das primeiras (Lyell 1830-1833); ou então, as espécies extintas seriam substituídas por novas criações com nível de organização superior (progressionistas, tais como William Buckland, Sedgwick, Hugh Miller, Agassiz); ou ainda, as novas espécies se originariam por alterações muito rápidas, ou seja, saltos, a partir das espécies pré-existentes (E. Geoffroy Saint-Hilaire, Darwin na patagônia, Galton, Goldschmidt).

A evolução saltacional é mais conhecida como "transmutação" porque a produção de novas espécies ou novas formas é descontínua, devido a rápida criação de uma nova essência.

O Pioneirismo de Lamarck

Jean-Baptiste de Lamarck é sempre lembrado por ter proposto uma teoria (herança dos caracteres adquiridos) que estava errada. Freqüentemente encontramos nos livros e apostilas escolares a contraposição entre as teorias de Lamarck e as de Darwin. Devemos saber em primeiro lugar que Lamarck foi um cientista pioneiro, pois além de ser o primeiro a apoiar a evolução, foi o primeiro a propor uma teoria para explicá-la. O próprio Darwin advogava a teoria da herança dos caracteres adquiridos de Lamarck. Na sua obra a Origem das Espécies, podemos encontrar diversas passagens em que Darwin assume esta teoria. A Teoria de Lamarck, como a de Darwin depois, não foi aceita em sua época, não porque a maioria da comunidade rejeitava a herança dos caracteres adquiridos, mas principalmente porque Lamarck era a favor da evolução, o que ia de encontro aos dogmas cristãos de então e ao fixismo e essencialismo, amplamente estabelecidos na mentalidade da cultura ocidental de então. Naquela época, a maioria dos naturalistas ainda não reconheciam o fato da evolução. Para Lamarck a evolução era um fenômeno estritamente vertical, procedendo numa única dimensão, a do tempo. A evolução seria um movimento do menos perfeito para o mais perfeito, dos mais primitivos protozoários para os mamíferos e, finalmente, o homem. A Philosophie Zoologique de Lamarck era o paradigma do evolucionismo vertical. As espécies não desempenhavam nenhum papel, segundo o pensamento de Lamarck. Novas espécies originavam-se, o tempo todo, por geração espontânea a partir da matéria inanimada; mas isso produziu somente os mais simples protozoários. Cada linha evolutiva, novamente estabelecida, movia-se gradualmente na direção de uma perfeição cada vez maior. Os organismos perfeitamente adaptados a seu ambiente passavam para as suas proles, as características novamente adquiridas (herança dos caracteres adquiridos). Ainda, para Lamarck o caminho para a prefeição seria guiado pelo ambiente; um ambiente em mudança alteraria as necessidades do organismo, e este organismo responderia a estas mudanças alterando o seu comportamento e daí usando alguns órgãos mais que outros. Tal uso e desuso levaria a mudanças na morfologia, as quais seriam passadas de geração à geração.

O Caminho de Darwin à teoria da seleção natural

Na sua famosa viagem à bordo do Beagle, Darwin teve a oportunidade de vislumbrar uma diversidade enorme de fauna e de flora. Quando esteve nas Ilhas Galápagos conheceu e coletou para as suas coleções, várias espécies de animais, entre as quais uma ave, o tordo-dos-remédios, (gênero Mimus), que apresentava três formas distintas, cada uma habitando uma das três diferentes ilhas. Apesar de serem três formas diferentes, ou talvez, três espécies distintas, como queria o ornitologista e amigo de Darwin, John Gould, tais aves apresentavam muitas semelhanças em comum. Foi a partir daí que Darwin começou a conceber a possibilidade das três formas serem aparentadas, e, portanto, descenderem de um único ancestral comum, provavelmente originário do continente sul-americano. Se fosse assim, então, talvez todas as outras espécies de tordo-dos-remédios do continente também descendessem de um único ancestral. Esta idéia poderia, então ser aplicada a todas as demais espécies. Em 1837, um ano após a sua chegada da viagem à bordo do Beagle, Darwin já acreditava firmemente na idéia da origem gradual de novas espécies pela especiação geográfica, bem como na teoria da evolução pela ascendência comum. Restava agora compreender como a espécie ancestral teria originado descendentes com modificações, ou seja, quais os mecanismos que possibilitaram o surgimento de novas formas ou espécies. Foi então que em 28 de setembro de 1838 Darwin escreve em sua autobiografia:

"Quinze meses depois que começei minha pesquisa sistemática, li por acaso, apenas por entretenimento, o trabalho de Malthus sobre População, e estando bem preparado para avaliar a luta pela existência pelas observações contínuas dos hábitos dos animais e das plantas, me veio a idéia de que sob tais circunstâncias, variações favoráveis tenderiam a ser preservadas enquanto as desfavoráveis seriam destruídas. O resultado disto seria a formação de novas espécies. Aqui, então, eu tinha finalmente conseguido uma teoria pela qual trabalhar." Hoje é consenso que este fato foi de crucial importância para a idéia de seleção natural, embora não se pode negar que tal idéia já vinha amadurecendo desde os trabalhos de Darwin com pombos domésticos. Darwin, em sua autobiografia, diz que a verificação do sucesso dos criadores de animais, na produção de novas criações deu a ele a chave para o mecanismo de evolução e foi deste modo a base para sua teoria da seleção natural.

Darwin, entretanto, demorou mais vinte anos para publicar sua obra maior. Durante este período ele escreveu alguns manuscritos preliminares em 1842 e 1844, e um trabalho magnífico em dois volumes sobre os cirripédios, o qual, segundo alguns autores, lhe deram experiências de inestimável valor para sua obra, As Origens das Espécies.

Em Abril de 1856, Darwin começou a compor a Origem das Espécies. Após dois anos, quando terminou os nove primeiros capítulos, ele recebeu uma carta do naturalista Alfred Russel Wallace, que naquela época estava coletando espécimes nas Moluccas. Nesta carta Wallace solicitava à Darwin que lê-se o manuscrito em anexo, e, se o aprovasse, que o submete-se a algum jornal. Ao ler o manuscrito, Darwin ficou atordoado. Wallace, essencialmente, havia chegado a mesma teoria da evolução por ascendência comum por meio da seleção natural. Em 1 de Julho de 1858, os amigos de Darwin, Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker apresentaram os manuscritos de Wallace juntamente com os excertos dos manuscritos e cartas de Darwin, no encontro da Sociedade Linneana de Londres. Esta apresentação culminou com a publicação simultânea das descobertas de Darwin e Wallace. Darwin rapidamente abandonou a idéia de terminar seu monumental trabalho sobre as espécies e escreveu aquilo que chamou de "resumo", o seu famoso trabalho, A Origem das Espécies, publicado em 24 de Novembro de 1859.

O impacto da Origem foi enorme. Esta obra foi referida, de maneira correta, como "o livro que abalou o mundo". No primeiro ano foram feitas 3.800 cópias, e durante a vida de Darwin só na Grã-Bretanha foram feitas mais que 27.000 cópias. Diversas impressões americanas, bem como inumeráveis traduções, também apareceram. Todavia, somente na nossa época é que os historiadores compreenderam quão fundamental foi a influência deste trabalho. Toda discussão moderna sobre o futuro do homem, a explosão populacional, a luta pela existência, o propósito do homem e do universo, bem como o lugar do homem na natureza, permanece em Darwin.

Nos trinta e três anos restantes de sua vida, Darwin trabalhou arduamente com outros aspectos da evolução que não conseguiu tratar adequadamente na Origem. Num trabalho de dois volumes, The Variation of Animals and Plants under Domestication (1868), ele enfrentou o problema da origem da variação genética. Em The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871), tratou da evolução da espécie humana e expandiu sua teoria da seleção sexual. The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872) deixou os fundamentos para o estudo do comportamento animal. Sua obra, Insectivorous Plants (1875) descrevia a notável adaptação da drósera e de outras plantas carnívoras. Em The Effects of Cross-and Self-fertilization in The Vegetable Kingdom (1876), em The Different Forms of Flowers on Plants of the Same Species (1877), e no The Power of Movement in Plants (1880), Darwin discutiu aspectos do crescimento e da fisiologia das plantas, como indicado nos títulos das referidas obras. E finalmente em The Formation of Vegetable Mold, through the Action of Worms, with Observations on Their Habits (1881), ele descreveu o importante papel das minhocas na formação da camada superior do solo.

Darwin, na sua obra maior, desenvolveu duas teses principais: a primeira foi que as espécies descendiam, com modificações, de ancestrais comuns; a segunda era que o agente principal das modificações era a seleção natural. Sobre a primeira tese, da ascendência comum, Darwin estava sempre procurando evidências que a sustentasse, seja pela anatomia e embriologia comparada, ou recorrendo aos registros fósseis. Assim Darwin foi talvez o primeiro cientista a praticar o método hipotético-dedutivo, onde a hipótese sugerida deve ser testada pelo confronto com novos dados observacionais. Quanto a sua segunda tese, a idéia da seleção natural, Darwin, bem como Wallace, reconheceram em seus trabalhos que a variação entre os organismos individuais era a matéria-prima sobre a qual a seleção atuava, favorecendo os organismos mais adaptados.